Jornalismo ético, dialógico e transformador?: uma análise da cobertura do tráfico de bebês pela imprensa brasileira nos anos 1980
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Jornalismo - Aspectos sociaisImprensa - Brasil - Anos 1980
Vítimas de tráfico humano
Crianças - Crime contra - Brasil
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Esta dissertação tem como contexto a cobertura jornalística do tráfico de bebês no Brasil, em especial nos anos 1980, fenômeno marcado por raptos de recém-nascidos, cooptação de mães em extrema vulnerabilidade social e adoções internacionais ilegais. O estudo tem como objeto as narrativas produzidas pela imprensa brasileira sobre esses casos, entendidas aqui não apenas como registros históricos dos acontecimentos, mas como construções discursivas que moldaram a compreensão pública do fenômeno e produziram efeitos duradouros sobre a vida das pessoas diretamente envolvidas. A pesquisa parte das seguintes perguntas: de que maneira o jornalismo brasileiro representou o tráfico de bebês nos anos 1980 e em que medida essas narrativas se aproximaram – ou se afastaram – de uma prática jornalística ética, dialógica e humanizada? A ideia que orienta o trabalho é a de que a cobertura predominante esteve ancorada em um modelo jornalístico hegemônico, marcado pela centralidade de fontes institucionais, pelo enquadramento policial e jurídico dos acontecimentos e pela objetivação das experiências humanas, contribuindo para processos de desumanização simbólica e silenciamento das vozes diretamente afetadas. O objetivo geral da pesquisa é compreender, de modo crítico, como essas narrativas jornalísticas trataram o tráfico de bebês nos anos 1980, à luz de uma proposta de jornalismo humanizado. Como objetivos específicos, busca-se: (a) identificar padrões quantitativos na cobertura da imprensa sobre o tráfico de bebês; (b) examinar qualitativamente enquadramentos narrativos, escolhas de fontes e modos de representação dos sujeitos envolvidos; e (c) avaliar os efeitos éticos e simbólicos dessas narrativas. Em relação à metodologia, a pesquisa combina análises quantitativa e qualitativa de conteúdo, conforme a tradição francesa representada em Bardin (1977). O corpus é composto por reportagens publicadas nos anos 1980 em jornais de circulação regional e nacional, coletadas em acervos digitais e hemerotecas, bem como por uma série jornalística publicada em 2012, que revisita o tema com distanciamento temporal. As análises qualitativas concentram-se nos modos de narrar, nos silêncios e nas relações de poder implicadas no discurso jornalístico. A fundamentação teórica articula autoras e autores que problematizam o modelo hegemônico do jornalismo e propõem alternativas éticas e epistemológicas, como Medina (2002, 2003, 2017), Moraes (2019), Ijuim (2012, 2017, 2024), Rovida (2014, 2023), Dines (1974, 1998, 2009), Peixoto (2024) e Araújo (2017), mobilizando conceitos como desumanização, alteridade, subjetividade, diálogo e práxis jornalística. Os resultados evidenciam que, embora o jornalismo tenha desempenhado papel relevante na denúncia do crime, suas narrativas frequentemente marginalizaram a experiência humana, privilegiando procedimentos institucionais em detrimento da escuta das vítimas. A relevância da pesquisa reside na contribuição aos estudos de jornalismo, especialmente no que se refere à análise de coberturas de violência e de violações de direitos humanos, ao evidenciar os limites do modelo jornalístico hegemônico e as possibilidades de uma prática ética, dialógica e humanizada.
