Spillover (transbordamento) de aves em paisagens agrícolas por meio da metodologia de isótopos estáveis
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A ocupação humana e a exploração intensiva dos recursos naturais têm provocado alterações significativas nos habitats, afetando diretamente a biodiversidade. Apesar disso, em paisagens compostas por fragmentos nativos e áreas agrícolas, muitas espécies podem realizar spillover, que é o movimento de organismos entre diferentes tipos de habitat para forrageamento e/ou dispersão. Nesse contexto, compreender as estratégias utilizadas pelas aves para se adaptar a ambientes agrícolas é essencial para a conservação da biodiversidade. Os isótopos estáveis de carbono (δ¹³C) e nitrogênio (δ¹⁵N) surgem como ferramentas eficazes para revelar informações tróficas antes obtidas apenas por métodos convencionais, como análise de conteúdo estomacal ou rastreamento. O presente estudo teve como objetivo examinar o spillover e caracterizar isotopicamente as comunidades de aves presentes em fragmentos florestais inseridos em uma paisagem agrícola da Mata Atlântica, avaliando como a composição da dieta varia em função do tamanho do fragmento, do tipo de matriz agrícola (café ou pastagem) e das características das espécies, considerando a especificidade no uso do habitat e a dieta insetívora. Foram selecionadas quatro paisagens focais (raio de 3 km, com 11% a 21% de cobertura florestal remanescente), todas com condições abióticas semelhantes e separadas por no mínimo 6 km localizada no sul de minas gerais. Em cada paisagem, três fragmentos florestais foram amostrados: pequeno (50 ha), sempre circundados por pastagens e/ou cafezais. As coletas ocorreram no período seco de 2018 (março a maio), antes da colheita do café. Foram capturados 445 indivíduos de 76 espécies, classificados conforme a especificidades do uso de habitat em dependência florestal (DF = dependente florestal, GH = generalista de habitat, EAA = especialista em áreas abertas) e guilda alimentar (IS = insetívoro, NI = não insetívoro). As composições isotópicas foram obtidas por combustão “on-line” e análise em espectrômetro de massas, sendo os dados interpretados por modelos lineares mistos generalizados (GLMMs) com efeitos fixos e aleatórios. Os resultados indicaram que interfaces com café apresentaram maior número de indivíduos capturados (249) em relação às interfaces com pastagens (196), embora o número de espécies tenha sido praticamente igual (57 e 56 espécies, respectivamente). Generalistas de habitat foram predominantes 60% das capturas, seguidos por especialistas em áreas abertas 22% e dependentes florestais 18%. Em relação à dieta, as espécies insetívoras corresponderam a 49,4%, e as não insetívoras a 50,6%. Quando combinadas as categorias de uso de habitat e alimentação, destacaram-se os generalistas de habitat insetívoros (GH/IS) com 58% das capturas, seguidos por dependentes florestais insetívoros (DF/IS) 18%, especialistas em áreas abertas não insetívoros (EAA/NI), 12% especialistas em áreas abertas insetívoros (EAA/IS), 10% e generalistas de habitat não insetívoros (GH/NI), 2%. As análises isotópicas revelaram diferenças claras nas fontes alimentares de plantas de ciclo fotossintético C3 e C4, para o carbono, e nas análises do nitrogênio δ15 N as posições tróficas entre os ambientes de pasto e café, são influenciadas por fatores como uso de fertilizantes nitrogenados. Esses resultados destacam a plasticidade alimentar das aves em paisagens agrícolas, evidenciando a importância dos fragmentos florestais para a manutenção das redes tróficas e do fluxo de espécies entre habitats. Contudo, o estudo apresenta limitações, como a restrição temporal das amostras e a ausência de análises sazonais ou de interações tróficas mais complexas. Futuras pesquisas devem ampliar a escala temporal e espacial, incluir diferentes ecossistemas e explorar de forma integrada os efeitos das perturbações antrópicas sobre a dinâmica trófica.
