Avaliação das diferentes atividades tóxicas do veneno de Micrurus spixii, e a eficácia de neutralização do soro antielapídico, varespladib e neostigmina através de estudo in vitro, in vivo e ex vivo.
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Frente à questão global de saúde pública envolvendo os acidentes ofídicos e alinhado à proposta da Organização Mundial de Saúde em reduzir a 50% até 2030 as consequências nefastas do envenenamento, este trabalho avaliou a eficácia do Varespladib (VPL) como proposta alternativa e, indiretamente reforçar através de evidências experimentais o seu redirecionamento. O VPL é um inibidor de fosfolipases (PLA2) e tem se mostrado eficaz contra as atividades tóxicas de diferentes venenos ofídicos ricos em PLA2. Os venenos das serpentes do gênero Micrurus são conhecidos por apresentar potente atividade neurotóxica, podendo levar ao óbito por paralisia respiratória grave. Existem duas principais neurotoxinas presentes nesses venenos, com variações nas concentrações e atividades, entre as diversas espécies. A Micrurus spixii (M. spixii) é uma cobra coral que habita a região amazônica no Brasil, conhecida como coral amazônica. O estado da arte sobre a composição deste veneno é a existência de toxinas que atuam tanto em nível pré- como pós-sináptico. No primeiro, atua através do conteúdo de PLA2 que inibe a liberação de acetilcolina pelo neurônio motor; no segundo, através da ação sobre receptores nicotínicos, a exemplo das toxinas de três dígitos (3FTxs) ou -neurotoxinas, o veneno leva à paralisia neuromuscular por esses dois principais mecanismos. Dessa forma estabeleceu-se o racional teórico deste estudo pela associação de Varespladib à Neostigmina (um agente anticolinesterásico), para avaliar a sua eficácia sobre esses dois alvos moleculares. Foram realizados ensaios para caracterização bioquímica do veneno (quantificação de proteínas totais e eletroforese em SDS-PAGE), tromboelastometria in vitro para averiguar a atividade anticoagulante sobre plasma humano, ensaios in vivo para avaliar as atividades letais e miotóxicas e ensaios ex vivo em preparações neuromusculares de ave. Soro antielapídico comercial foi utilizado em todo o estudo como referência. O teor proteico do veneno foi de 1,59 ± 0,09 mg/mL. Duas bandas majoritárias foram encontradas na eletroforese em SDS-PAGE, indicando a presença de PLA2 e 3FTx. O veneno apresentou potente atividade anticoagulante sobre o plasma humano in vitro, assim como apresentou alta atividade miotóxica, e elevada letalidade in vivo. Também foi observado o bloqueio neuromuscular em preparações ex vivo, além do bloqueio das respostas contraturantes sobre ACh e KCl exógenos. O soro antielapídico foi totalmente eficaz contra a letalidade, mas nas demais atividades a eficácia foi parcial. Os resultados mostraram que o VPL foi mais eficaz nas atividades que dependiam da ação da PLA2, como nas atividades anticoagulante e miotóxica. Houve um efeito sinérgico entre o VPL e o soro potencializando a eficácia de ambos. O VPL não apresentou eficiência contra a atividade letal do veneno de M. spixii, e, apresentou eficácia parcial contra o bloqueio neuromuscular nos ensaios miográficos. Esses dois resultados interpretados em conjunto indicam que essas atividades dependem exclusiva ou preponderantemente da ação de α-neurotoxinas pós-sinápticas. A Neostigmina não apresentou eficácia no ensaio de letalidade, nas condições utilizadas, e sugere-se que sua indicação seja revista. Os resultados do presente estudo mostram que o VPL pode ser utilizado como uma alternativa complementar à soroterapia.
