Uma análise textual dos antidepressivos: material jornalístico
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Antidepressivos - AdministraçãoMedicamentos - Administração
Propaganda - Medicamentos
COVID-19, Pandemia de, 2020-2023 – Saúde mental
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O crescimento expressivo nas vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor no Brasil, intensificado a partir do contexto da pandemia de Covid-19, constitui o ponto de partida deste estudo. Entre 2019 e 2022, observou-se uma elevação de 36% no número de unidades comercializadas, evidenciando a ampliação do consumo desses medicamentos no país. Diante desse cenário de expansão do uso desses medicamentos, buscou-se compreender como os antidepressivos são abordados no discurso midiático. Apesar da crescente presença do tema na mídia, são escassos os estudos brasileiros que investigam sua construção discursiva por meio de métodos de análise textual automatizada. O objetivo deste estudo foi investigar como os antidepressivos são retratados pelo jornal Folha de S.Paulo. Foram inicialmente identificadas 315 reportagens em formato digital, publicadas entre 1º de janeiro de 2019 e 31 de dezembro de 2023, por meio da busca com a palavra-chave “antidepressivos”. Após aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 182 reportagens foram consideradas elegíveis para análise. A investigação foi conduzida com base em uma abordagem metodológica mista com a aplicação articulada de análises quantitativas e qualitativas. O corpus foi submetido a diferentes técnicas de análise textual, incluindo análise lexical, modelagem de tópicos por Latent Dirichlet Allocation (LDA) e análise de correspondência múltipla, com o objetivo de identificar padrões discursivos, núcleos temáticos e relações entre variáveis editoriais e narrativas. Todas essas análises foram realizadas na linguagem R, por meio da interface RStudio. Parte do processamento semântico auxiliar foi realizado com o apoio da ferramenta ChatGPT, desenvolvida pela OpenAI, aplicação prática de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), utilizada especificamente para a classificação de sentimentos, a sumarização textual e a definição dos estilos narrativos, por meio de técnicas de engenharia de prompts. Observou-se uma intensificação na cobertura jornalística sobre antidepressivos a partir de 2022, com destaque para o formato digital. A análise lexical identificou alta frequência de termos como “depressão” (n = 701), “saúde” (n = 591), “pessoas” (n = 580), “tratamento” (n = 550), “medicamentos” (n = 417) e “antidepressivos” (n = 375) no corpus textual das reportagens, indicando a centralidade de uma abordagem biomédica. A modelagem de tópicos permitiu a identificação de quatro categorias temáticas que organizaram os principais sentidos associados ao uso de antidepressivos: intervenções, efeitos, contexto e público. A análise de sentimentos revelou a predominância de reportagens com sentimento negativo (n = 78; 42,8%), seguidas por neutro (n = 62; 34,1%) e positivo (n = 42; 23,1%). A análise de correspondência múltipla evidenciou padrões de segmentação no espaço editorial, com sentimentos positivos concentrados em reportagens das seções Ciência e Mercado, marcadas por estilo técnico e informativo, enquanto sentimentos negativos apresentaram distribuição mais ampla, associados a conteúdos críticos ou opinativos, publicados em seções como Opinião, Saúde e Colunas. Ao evidenciar a predominância de sentimentos negativos e o predomínio do enquadramento biomédico, com presença pontual de perspectivas críticas e escassa abordagem preventiva, o estudo contribui para compreender os mecanismos de construção midiática em torno dos antidepressivos na cobertura jornalística da Folha de S.Paulo. Os achados reforçam a importância de promover uma comunicação em saúde mais plural, ética e sensível à complexidade do sofrimento psíquico.
